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PS:

E eu que não queria falar sobre mim nesse blog. Maldito ego.

Eu não sou boazinha!

E seguindo a linha do que eu “não sou” (claro, eu não sei definir o que sou, mas sei muito bem o que eu não sou), venho dizer a quem quiser ouvir que eu não sou boazinha. E demorei muito tempo para entender isso. E até hoje luto contra isso. E a ideia veio de um espelhinho empoeirado guardado no fundo da gaveta, que acabei de achar, envolto no pano de chão mais rock and roll do mundo (minha camiseta do Hollywood Rock 94 toda assinada pelos caras do Live). Vamos a ele (o espelho):

Hot Holly Days!

A maldade está nos olhos de quem vê

E então que lembrei de quando fiz isso aí, trancada no quarto chorando por alguma injustiça que fizeram comigo. Eu, tão boazinha. E sofria… Não era forçado, eu sempre fui assim: queria agradar o mundo, e quando não conseguia, ficava com o coração partido. Na verdade, hoje eu tenho uma outra teoria sobre isso, que tem tudo a ver com eu agora saber que eu não sou boazinha, daquelas que são facilmente passada para trás. E eu estou longe de ser isso, apesar de ser sensível, “de coração sangrando”, como diz meu amigo Igor.

Veja bem, eu sou uma pessoa boa. Fundamentalmente boa, de coração bom, de riso frouxo, largo e sincero. Gosto de ajudar as pessoas, de abraçar, beijar, me entrego mesmo. Mas estou longe de ser boazinha. Mesmo porque boazinha soa meio fake, coisa que eu não sou. E porque também remete a uma palavra que sempre me assustou: ser boazinha, se não significar ser sonsa, significa ser boba.

E aí que há uns meses comecei a pensar no porquê de eu fazer tanta questão de agradar os outros e querer que todos gostem de mim. É bom, é gostoso… e é também um pouco de ego. Porque todo mundo tem o legítimo direito de não gostar da gente, não é? E eu percebi que essa coisa de se querer ser amada pela geral não existe. Não vou dizer que não continuo tentando, sou um animal predominantemente sedutor – minha veia árabe. Mas hoje sei entender melhor esse lance, sei me segurar um pouco. É meio que um “sedutores anônimos”: um dia de cada vez.

Também aprendi a não me doer tanto pelas coisas: cada um tem a sua frequência, tem muita gente querida por aí vibrando na mesma frequência que eu… mas também tem gente que não está, e não é por mal. Eu sei. Então aprendi a me dar melhor com as pessoas diferentes. A respeitar mais o jeito delas. Aprendi a não ter que me revoltar quando me despedaçam o coração. É óbvio que a maldade está nos olhos de quem vê. Mas quer saber? Eu já não me importo mais tanto com o que os outros vêem.

Eu não sou roqueira

Dia desses me perguntaram sobre ter um “status de rock”.

E eu que fui chamada de roqueira por toda a minha adolescência. E eu que usava muito preto, que não usava nem batom. Que gostava de música alta, muito alta. Eu que fui em shows históricos e sonhei ter ido em festivais que mudaram o mundo. E eu, euzinha, digo que não sou roqueira. Não é trair o movimento, não é negar meus primórdios. O rock and roll é meu norte. Eu atiro pra muitos lados, viajo por muitas ondas… mas o rock é minha referência.

É a atitude, é o som. E coisa mais louca é adorar Lobão, a imagem do rock, mas ser guiada desde cedo pelas ideias do Humberto Gessinger, ícone do anti-rock, da atitude menos roqueira do mundo. Ser louca por Stones, mas apaixonada pelos Beatles na fase iê-iê-iê (também). O rock me fez gostar de música, não superficialmente, não as músicas que tocam nas rádios… O rock fez com que, numa época sem internet, eu comprasse revistas de letras traduzidas quando ainda era uma pré-adolescente. E ter prazer nas aulas de inglês, só pra entender o que eu cantava assim, de qualquer jeito. Linguagem universal. O rock me levou a amar sonoridade, musicalidade, melodia. Arte, intertextualidade. E perceber que tinha um tantão de ritmos maravilhosos, bem longe da pegada rock and roll. O rock me guia… mas eu ando em zigue-zague, em círculos, ando só – como se voasse em bando. Me visto como alguém dos anos 50, 60… e daqui a pouco tô de jeans rasgado e camiseta, ou cheia de acessórios modernosos. Rocking and rolling, deixando rolar, cada hora de um jeito. Passei por bastidores de shows nas melhores (e nas piores) casas de São Paulo. De Aeroanta, passando pelo Olympia, e por todos os nomes do antigo Palace. E era punk, era reggae, era mpb… e claro, muito rock and roll.

Tudo isso pra dizer que eu não devo nada a ninguém. Não preciso mostrar meu “status de rock”, porque o rock corre nas minhas veias com o sangue, vermelho e pulsante. É natural. Não é um status, não é um estilo de vida, nem mesmo um estado de espírito. É algo que anda junto com a vida. É a vida. Que, se não existisse, seria inventado para dar sentido às minhas escolhas, às nossas escolhas. A minha evolução como pessoa depende disso. Ao som do rock and roll eu cresci, viajei, namorei, estudei, trabalhei… Ao som do rock eu pesquisei outros sons. Mais leves, mais pesados. Tudo por causa do meu amor à música. Por causa do rock and roll.

Se com dez anos de idade eu ia no Show da Xuxa (faz parte pra quem tá na faixa dos 30), com 11 já via bandas nacionais com autorização assinada pelos meus pais (grandes culpados pelo meu amor incondicional à música), com 12 via o Guns ‘n’ Roses com o louco do Axl – primeiro show de estádio; com 13, Michael Jackson – som pop, atitude ‘punk’; com 14 bati muita cabeça no show dos Ramones; com 15, Stones – vivendo um dos dias mais lindos da minha vida; com 16 Page&Plant, e como envelhecer pode doer… e por aí vai. Hoje sou praticamente uma senhora do rock. Não vi muita gente que amaria ter visto. E também cansei de ir em show de estádio. Hoje até prefiro os mais intimistas. É, tô velha. Mas não se enganem: Quem tem rock and roll na alma, sempre terá. E eu sempre terei. Não é status quo. É condição sine qua non.

Tô sentindo…

Que estou entrando na fase concha. Pra quem me conhece já sabe como é. Introspectiva, calada, quase que sumida. Já tive muitas dessas por aí. Antes ficava dias, meses. Já não sou mais assim: a vida faz a gente ter que estar presente. Ter opinião, ter resposta pra tudo. O mundo pede que a gente fale. E eu sou dada, sou de querer agradar o mundo (tema de tantos posts antigos e de outros que virão). Aí falo, matraco. Aí me dou, me vendo, me empresto, me alugo. E como vocês já sabem, eu não tenho filtro. Dou o bom, mas acabo sempre ficando com uma coisiquinha ruim que o outro aliviou. Geralmente aliviam em mim, sem perceber. Eu fico feliz, todo mundo fica feliz. Mas chega no fim do dia e lá estou eu: acabada, com olheiras e dor nas costas. Falta de filtro de energia, é isso.

Aí, vezenquando, mesmo que por algumas horinhas, lá venho eu: quieta, lacônica, um tanto melancólica, saudosista. Querendo parar o mundo à força. E se ele não pára, paro eu no meu cantinho. E fico, até ele me chamar de novo.

Mother should I build the wall?

Muitas vezes construí muros… e fiquei lá, dentro de mim e das minhas fronteiras. Conchando. Até descobrir que conchar demais me deixava medrosa. Agora só concho aos pouquinhos, pra não doer tanto. Concho um tantinho, participo um pouquinho, e lá se vão mais 570 quilômetros. E tudo de novo. É #meujeitinho. É como me recupero da dureza do dia, do cinza do dia.

Não, definitivamente não construirei mais muros. Talvez só um varalzinho com lençol, separando meu mundinho do seu, meu mundinho do resto do mundo todo. Mas eu volto. Eu sempre volto. Senão eu enlouqueço. E eu sei que eu já sou louca o bastante.

Abaixe o Ego um Pouco

Esse som é do álbum Denny Caldeira e os Borbulhantes. Denny Caldeira é um músico brilhante, e como todo músico brilhante, é um pouco avoado, e esqueceu de fazer sucesso. Tive o prazer de conhecê-lo ainda molequinha, lá pelos meus 11, 12 anos, pois ele era amigo do meu irmão. Ainda hoje o vejo tocando pelos bares do Tatuapé, vez ou outra ele agita, toca com os grandes, mérito que ele deveria ter sempre. Mas agora estamos naqueles tempos em que não se acha nada do Denny por aí. Até seu site, que aliás, tinha um design pra lá de lindo, aparentemente está fora do ar. Eu baixei todas as músicas pela net (Porque o cd é raríssimo). E como elas não estão mais disponibilizadas, resolvi fazer esse favor ao mundo e fiz o upload.

Ouçam, espalhem, façam o que quiserem… mas não dá pra passar batido pelo Denny.

Segue a letra da música-título do post e cliquem aqui para ouvir a música através do SoundCloud. Se curtirem, baixem o restante pelo megaupload. Vale a pena. Divirtam-se!

Abaixe o ego um pouco
Tem muito santo no altar
Nenhum milagre na cidade
O povo só pensa em rezar
Se afastando da verdade

O mal chegou foi pelo mar
Esparramando crueldades

Vejo programas de tevê
Fazendo lixo pra vender
Alimentando a solidão
E disfarçando a situação

A Terra não é de ninguém
O mal tomou ela do bem

Tamanho feito infeliz
Contaminou pela raiz
Gerando um mundo de horror
De muita fome e pouco amor

Mas sempre é tempo de crescer,
Nos uniremos pra dizer

Abaixe o ego um pouco…

Abaixe o ego um pouco,
Sejamos mais loucos
Já que sempre foi ruim
Já que sempre foi ruim

Mas sempre é tempo de crescer
Nos uniremos pra dizer, babe

Abaixe o ego um pouco…

Abaixe o ego um pouco
Sejamos mais loucos
Já que sempre foi ruim
Já que sempre foi ruim

#OUÇÃO!

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O “No tempo da delicadeza” agora pode ser seguido através do Bloglovin, um leitor de feeds fofinho e simplérrimo. Mas uma forma de vocês me acompanharem na net.

Logo mais eu volto com um post fresquinho!

Tua boca.

Trabalhando demais, mas não aguentei e vim postar. Só para continuar com a sessão “músicas provocantes do Itamar Assumpção” -que eu gosto desde pequena, quando ganhei – do próprio – seus cds (Itamar e eu éramos figurinhas fáceis do bairro da Penha, rs). E, já que falei do mestre, aviso para quem puder: Domingo agora, dia 25/04, tem show da sua filha, Anelis Assumpção, com Zélia Duncan no Shopping Anália Franco. Duas queridas. Já tô lá!

Tua Boca

Itamar Assumpção

Ei, essa é a minha. Cadê a tua, amor?

 

A tua boca me dá água na boca
Ai que vontade de grudar uma na outra
E sugar bem devagar,
gota por gota
Beija-flor beijando a flor
ou borboleta

A tua boca me dá água na boca
Que vontade de rasgar a nossa roupa
Vamos pra qualquer lugar,
praquela gruta
Pra qualquer quarto de hotel
praquela moita

A tua boca me dá água na boca
Que vontade de gritar, é uma bomba
Acho que vai rebentar, desgraça pouca
Azar eu vou me matar
na sua boca

Azar eu vou me matar na sua boca

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Olho no Olho

(Itamar Assumpção)

Por cabo T.V. satélite por rádio via internet
Por modem fio ou telex bom mesmo é o tete à tete
Bilhete carta recado um bip sempre ocupado
Out-door raio fax ligado bom mesmo é rosto colado

Cartão postal é bacana mas bom mesmo é ter você na minha cama
Mensagem não é consolo bom mesmo é ali olho no olho

Tijolinho anúncio pago panfleto retrato falado
Por cupido por duende bom mesmo é bater de frente
No berro pombo correio seja celular ou meio
Painel faixa ou mural bom mesmo é o ato carnal

Cartão postal é bacana mas bom mesmo é ter você na minha cama
Mensagem não é consolo bom mesmo é ali olho no olho

Por tambor telepatia
Por clip telefonia
Poema escrito na roupa
Bom mesmo é boca na boca

Por Pager via Embratel
Pelo vento por passa anel
Por átomos ou carro de bois
Bom mesmo é orgasmo à dois

Cartão postal é bacana mas bom mesmo é ter você na minha cama
Mensagem não é consolo bom mesmo é ali olho no olho

As mulheres da minha escrita.

Estava aqui, lendo o comentário da querida e delicadíssima Lee Schuster e comecei a relembrar… das minhas meninas, as mulheres que me motivaram a escrever, a melhorar minha escrita (que anda capenguenta, depois de tanto tempo parada). E sim, claro, a primeira mulher que me inspirou a escrever foi minha mãe: Foi ela quem me deu meu “primeiro diário”.

Mamãe, que me deu meu primeiro diário

E de lá para cá eu fui mudando, me inspirando nessas mulheres… Acho que a primeira inspiração foi minha prima: Como ela, eu escrevia versinhos e pedia para a família e as amigas da escola escreverem algo bonito. No início da adolescência ele cumpriu o papel de diarinho, e já mostrava minha tendência a amar as artes e guardar pensamentos: Escrevia, além do “acordei, tomei café, fui para a escola, vi tv, dormi” os filmes que havia assistido, com quem eram, os show que ia… A primeira grande mudança na minha escrita veio lá pelos 14 anos. Eu e minhas amigas de colégio, que são grandes amigas até hoje, deixamos as agendinhas de lado e começamos a fazer os cadernos… Ah, os cadernos.

A turma roquenrol na hora do recreio - Foto colada num dos cadernos.

Lá a gente basicamente contava nossas aventuras em shows de rock, passeios à Galeria do Rock, nossas primeiras experiências amorosas, letras de músicas, trechos de poemas, textos legais e recortes da Capricho, com diversas fotos de colírios e atores que amávamos, além das nossas letrinhas coloridas (antes da internet a gente tinha uma baita criatividade para deixar tudo gostoso de ler!).

As tais letrinhas coloridas

Então eu cresci, sempre escrevendo, ou coletando as palavras de escritores, letras de músicas, poemas, frases que ouvi no cinema…

Letra de música, fala de filme...

Meu primeiro contato com um blog, foi através de um homem (é, um dos poucos dessa história). Na verdade um menino, que conheci num treinamento de escola de inglês. Enfim, o Phil me apresentou aos blogs, e a partir da ideia do que era o dele, fiz o meu primeiro blog – Voltando ao estilo “Meu querido diário”, mas sempre imprimindo “o meu jeitinho” (#xuxafeelings). Acho que a pessoa mais importante para que eu mudasse definitivamente meu jeito de escrever foi a Taia, que descobri através da Carol Yin. Um amor tremendo, uma admiração absurda. A delicadeza em forma de letrinhas, todas tão apaixonadas quanto apaixonantes. Éramos duas mulheres vestidas de comic sans roxinhos no msn. E dela, da escrita dela, do jeito dela… veio inspiração, muita inspiração.

Natália, cheia de borboletas, poesia e PSs.

Depois de conhecê-la entrei de cabeça no mundo dos blogueiros, e pegava de cada um algo que entraria no meu tipo de escrita. Saí do Sunnyworld e fiz, com ajuda do meu querido Victor, o Pequenas Coisas – que anos depois, num acesso de “parem de me bisbilhotar”, eu apaguei. Quer dizer, salvei o que mais gostava e coloquei no Chocolate meio amargo, que durou bravamente até 2007, uma compilação de tudo isso e muito mais. Nesse tempo encontrei outras figuras incríveis com as quais me identifiquei. As mulheres lindas, decididas, sensíveis e gostosas da vez eram Kátia Portes (Minha poesia, minha irmã, minha marida); Nádia Lopes (Mais uma gauchinha amada, apesar de ser Colorado); Marcela Abboud (A rosa, ai rosa!); Danielle Muniz (Almodoviana e fã de Caio e Clarice, como eu); Carolina Sanches (a Carol Caracol, tulipíssima da minha vida), entre outras. Todas elas permanecem na minha forma de ver, ouvir e sentir o mundo.

Minhas meninas: Ká, Ná, Dani, Carol, Rosa.

E não, não parou por aí!

Muitas outras mulheres lindas, decididas, sensíveis e gostosas continuaram escrevendo e me inspirando. Nessa nova leva, Melissa Marian (A Mel); e  as minhas mulheres do FB: Márcia Frazão, Pat Lau e, claro, Lee Schuster, a musa inspiradora desse post. (Dani, não esqueci de você, mas tua inspiração na minha vida vale outro post). Sei que muitas ainda virão, sejam elas “da vida real”, da blogosfera ou famosidades.

Amores de cá e de lá: Mel, Marcia, Pat e Lee

De cá e de lá: Mel, Marcia, Pat e Lee

Não importa de onde elas vêm. Não importa quando chegaram. O que importa é que ficaram, e ficarão para sempre. Como inspiração, como amigas, como espelhos. As mulheres da minha escrita e da minha vida.

Mania de Explicação – Adriana Falcão

Há uns dez anos ou mais, minha amiga Areta chegou em casa toda feliz, mostrando um livro para mim. Era o “Mania de Explicação”, que fez com que eu me apaixonasse pela Adriana Falcão. Depois disso percebi que eu já a conhecia, só não tinha ligado o nome à pessoa. Depois disso o amor só aumentou, seja nas séries globais, nas parcerias com o maridão (Aliás, a família é toda talentosíssima) e nos seus livros simples, leves, felizes… delicados. Em 2003 comprei o “Pequeno Dicionário de Palavras ao Vento” e fui, dia a dia, postando um pouquinho do livro no meu ex ex ex blog (O primeirão que, não sei como, ainda está no ar. É legal ver minhas mudanças nesse tempo). Não tinha essa coisa pesada em cima da tal “pirataria” e eu nem mesmo terminei de postar, então fica como “trecho”.

Enfim, pensei algumas vezes antes de postar o “Mania de Explicação” aqui, mas como o texto é pequeno e achei ele na íntegra em diversos sites, me senti a vontade para trazer para vocês (O que – de forma alguma – deve fazer com que você não compre o livro, porque as imagens são lindas e segurar um livro na mão, sentir seu cheiro… é incomparável). Então, lá vai, como um aperitivo para quem não conhece o delicioso trabalho da Adriana:

MANIA DE EXPLICAÇÃO
Adriana Falcão


Era uma menina que gostava de inventar uma explicação para cada coisa.

Explicação é uma frase que se acha mais importante do que as palavras.

As pessoas até se irritavam, irritação é um alarme de carro que dispara bem no meio de seu peito, com aquela menina explicando o tempo todo o que a população inteira já sabia. Quando ela se dava conta, todo mundo tinha ido embora. Então ela ficava lá explicando sozinha.

Solidão é uma ilha com saudade de barco.

Saudade é quando o momento tenta fugir da lembrança para acontecer de novo e não consegue.

Lembrança é quando, mesmo sem autorização, seu pensamento reapresenta um capítulo.

Autorização é quando a coisa é tão importante que só dizer “eu deixo” é pouco.

Pouco é menos da metade.

Muito é quando os dedos da mão não são suficientes.

Desespero são dez milhões de fogareiros acesos dentro da sua cabeça.

Angústia é um nó muito apertado bem no meio do sossego.

Agonia é quando o maestro de você se perde completamente.

Preocupação é uma cola que não deixa o que não aconteceu ainda sair de seu pensamento.

Indecisão é quando você sabe muito bem o que quer mas acha que devia querer outra coisa.

Certeza é quando a idéia cansa de procurar e pára.

Intuição é quando seu coração dá um pulinho no futuro e volta rápido.

Pressentimento é quando passa em você o trailer de um filme que pode ser que nem exista.

Renúncia é um não que não queria ser ele.

Sucesso é quando você faz o que sempre fez só que todo mundo percebe.

Vaidade é um espelho onisciente, onipotente e onipresente.

Vergonha é um pano preto que você quer pra se cobrir naquela hora.

Orgulho é uma guarita entre você e o da frente.

Ansiedade é quando faltam cinco minutos sempre para o que quer que seja.

Indiferença é quando os minutos não se interessam por nada especialmente.

Interesse é um ponto de exclamação ou de interrogação no final do sentimento.

Sentimento é a língua que o coração usa quando precisa mandar algum recado.

Raiva é quando o cachorro que mora em você mostra os dentes.

Tristeza é uma mão gigante que aperta seu coração.

Alegria é um bloco de Carnaval que não liga se não é fevereiro.

Felicidade é um agora que não tem pressa nenhuma.

Amizade é quando você não faz questão de você e se empresta pros outros.

Decepção é quando você risca em algo ou em alguém um xis preto ou vermelho.

Desilusão é quando anoitece em você contra a vontade do dia.

Culpa é quando você cisma que podia ter feito diferente, mas, geralmente, não podia.

Perdão é quando o Natal acontece em maio, por exemplo.

Desculpa é uma frase que pretende ser um beijo.

Excitação é quando os beijos estão desatinados pra sair de sua boca depressa.

Desatino é um desataque de prudência.

Prudência é um buraco de fechadura na porta do tempo.

Lucidez é um acesso de loucura ao contrário.

Razão é quando o cuidado aproveita que a emoção está dormindo e assume o mandato.

Emoção é um tango que ainda não foi feito.

Ainda é quando a vontade está no meio do caminho.

Vontade é um desejo que cisma que você é a casa dele.

Desejo é uma boca com sede.

Paixão é quando apesar da placa “perigo” o desejo vai e entra.

Amor é quando a paixão não tem outro compromisso marcado. Não. Amor é um exagero…Também não. É um desaforo… Uma batelada? Um enxame, um dilúvio, um mundaréu, uma insanidade, um destempero, um despropósito, um descontrole, uma necessidade, um desapego?

Talvez porque não tivesse sentido, talvez porque não houvesse explicação, esse negócio de amor ela não sabia explicar, a menina.

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